domingo, setembro 21, 2008

O som dos noitibós

Os noitibós são aves insectívoras de hábitos nocturnos que, apesar de se encontrarem por todo o mundo, sobretudo nos trópicos, são relativamente pouco conhecidas. Em Portugal ocorrem 2 espécies: o noitibó-europeu (Caprimulgus europaeus), que tive a oportunidade de anilhar esta fêmea juvenil na foto este fim de semana (ver post anterior) e o noitibó-de-nuca-vermelha (C. ruficollis), ambos migradores estivais.
Os noitibós são tradicionalmente incluídos na família Caprimulgidae que, juntamente com as famílias Eurostopodidae, Nyctibiidae, Steatornithidae, Batrachostomidae, Podargidae e Aegothelidae, formam a Ordem Caprimulgiformes. Recentemente, toda a filogenia das Aves tem vindo a ser revista e os Aegothelidae parecem estar mais próximos dos andorinhões e inclusivé, vários autores propõem agrupar todas as Aves nocturnas numa única Ordem, juntando assim corujas, mochos, noitibós e famílias aparentadas.
A família Caprimulgidae contém 4 grupos filgeneticamente distintos: um, composto pelo género Chordeiles, outro composto por géneros sul-americanos (Uropsalis, Eleopthreptos, Hydropsalis algumas espécies de Caprimulgus), um terceiro composto por espécies do velho mundo (Caprimulgus e Macrodipteryx) e um último, composto por espécies norte-americanas (Phalaeonoptilus nutalli e Caprimulgus vociferus). Desta forma, o género Caprimulgus é considerado parafilético e provavelmente provenientes de uma expansão de noitibós ancestrais provenientes dos Neotrópicos; em termos correctos, apenas as espécies de África e da Eurásia devem ser incluídas neste grupo. Existem 2 razões para esta confusão na classificação e discordância entre classificações baseadas em características morfológicas e outras baseadas na filogenia: primeiro, ocorre uma retenção de comportamentos anti-predador e de captura de presas em grupos distintos; segundo, em grupos geneticamente próximos, ocorreu uma rápida divergência de outros comportamentos, como os de corte e defesa de território, que levaram por sua vez a uma diferenciação morfológica. [Larsen 2007, Barrowclough 2006]
Todas as espécies têm hábitos nocturnos, plumagem de tonalidades e padrões crípticos, que lhes permitem camuflar-se na vegetação do solo ou em ramos das árvores. O hábito de muitas espécies pousarem longitudinalmente nos troncos, em vez de transversalmente, como a maioria das Aves, permite aumentar esse efeito mimético. Todas as espécies são também insectívoras e alimentam-se em vôo, podendo deslocar-se vários quilómetros numa só noite, orientando-se e localizando as presas através da visão e conseguindo capturá-las com as suas bocas largas rodeadas de vibrissas sensoriais.
Os noitibós são mais frequentemente ouvidos que vistos e, sobretudo os machos, despendem grande energia na defesa do território, entrando em balanço energético negativo e perda de peso em Junho. Pequenas variações dos sons típicos chrrrr permitem identificar até 95% dos indivíduos presentes numa determinada área, tendo sido utilizados para seguir movimentos destas aves e testar a sua fidelidade ao longo dos anos ao mesmo território de reprodução. [Rebbeck 2000]
Apesar da sua presença discreta, os noitibós têm algumas características comportamentais interessantes tais como uma heterotermia diurna. Esta adaptação é comum a várias espécies e parece ser ancestral na Ordem, permitindo aos animais poupar energia durante o dia, quando não estão activos e contam com a sua capacidade mimética para evitar predadores. Em algumas espécies a temperatura cutânea pode descer até aos 20º C, sobretudo no Outono e Primavera. Algumas espécies americanas são também as únicas espécies de Aves a hibernar durante o Inverno.[Lane 2004]
Outro facto curioso é a sincronização dos ciclos reprodutivos com o ciclo lunar. Isto ocorre para que os juvenis, quando saem do ninho (feito no solo) e começam a caçar, aproveitem as noites de lua cheia, quando há mais luminosidade, de maneira a facilitar a obtenção de alimento. [Mills 1986]
Devido ao seu aspecto estranho e desconhecimento da sua biologia, os noitibós também se encontram envoltos em alguns mitos. Um deles, refere que se alimentam de leite de cabras, ideia que terá certamente surgido da observação mais frequente destas aves sobre rebanhos domésticos quando a proveitam a maior concentração de insectos nesses locais para se alimentar. Outro mito refere ainda que os noitibós, quando prturbados, mudam ovos e crias no ninho em vôo mas não existe uma única descrição fiável na literatura. [Jackson 2007]
E... já chega por hoje. Mais cromo-posts em breve!

1 comentário:

Taxonomys disse...

Se eu não soubesse melhor, diria que aquele tal diploma das penugens te chegou à cabeça...

:)

Agora a sério... Óptimo artigo!

Da Costa De Carvalho dixit